quantos indecisos andam agora por aqui

Thursday, January 15, 2009

e nada de novo acontece


Devolve-me a vontade e eu cedo-te os meus pesadelos, como se existissem trocas justas. Há tanto para recordar no silêncio dos olhares que fitam o desconhecido e há tantas conversas que poderíamos trocar, como se não tivessemos colocado pedras sobre tantos assuntos. E os assuntos crescem, tornam-se gigantes e tentamos encontrar rochas, rochedos, escarpas que os calem, para ficarmos quietos no abismo do silêncio. Deixa-te ficar aí quieto, no sofá, de pernas dobradas e vamos olhar fixamente para as matrioshkas que sorriem como a Mona Lisa, enquanto nos perguntamos quão pequena será a última - quase como o pote de ouro no final do arco-íris que nos encerra. Chove e chove lá fora, porque é inverno, porque a seguir vem a primavera e as flores têm de crescer, porque sim, porque há nuvens cinzentas no céu.

Como somos sonhadores, tu e eu! Calamos as certezas com as fantasias que nos invadem de noite e de dia, navegamos nesse mar de infinitudes que é a nossa imaginação e quase nos esquecemos que existe um tempo e um espaço e que temos de os respeitar ao informarmos todos os outros que nos rodeiam de que estamos aqui a esta hora. Podíamos ser livres, sabes, se quisessemos mesmo muito, mas isso seria complicado e nós queremos coisas simples.

Fizemos uma lista extensa, com aquela caneta que caiu por acidente no penedo e pela qual quase choramos e construímos odes intensas enquanto o vento carpia as suas mágoas para cima dos nossos cabelos, e dessa lista lembro-me: (coisas simples que adoramos) o vento, chocolate, música, sonhos, palavras, memórias, filmes, cozinhar, passeios, mãos dadas, abraços, mantas quentes no inverno, gelo no verão, suspiros, poemas, coffee breaks, domingos, quadros, caminhos, café. Mas olha, disse eu, nada disto é simples. Não, concordaste, tudo isto é mais complicado do que parece - e desataste a enumerar as complicações em cada uma dessas coisas e passámos a noite a tentar encontrar coisas simples, mas o que é isso de simples?

Vamos ver um filme? E assim aconteceu o resto da noite, iluminados pelo ecrã, a escutar aquela língua enrolada, que nos encolhe os lábios na procura da pronúncia certa, sob o calor do aquecedor que rugia resmungos e sentados no sofá de molas gastas lembrámo-nos que não existem coisas simples, ou que elas existem mas nós somos demasiado complicados para as encarar como descomplicadas. É isso, somos complexos, intrincados, absorvidos no enigma das coisas. Ainda bem que existe o calor, para nos fazer esquecer. E o chocolate, ah, o chocolate.

*imagem de Les Poupées Russes

"Happiness is a sad song..."

5 comments:

Lunático said...

Luna, quando queres até escreves bem ;) não preciso, nem consigo dizer mais nada. Perco-me nas palavras e na música. Magia?

beijo*

Anonymous said...

É preciso é querer ;)

beijo*

m said...

nada de mais belo que o simples... só que nós nem sempre sabemos o que isso é!

mais um grande texto :)

beijinhos

ML said...

Amei o texto! Revejo-me em tanta coisa...

Sandra said...

uau, tens uma maneira indiscritivel de passar para o papel as tuas ideias.
Adorei, mesmo.

Ps. E talvez o problema seja mesmo sermos demasiado complexoss.. Não é verdade?

Beijinhoss