quantos indecisos andam agora por aqui

Monday, April 27, 2009

No ouvido II

"Na vida, quando queremos muito uma coisa temos de correr atrás dela. Mesmo que ela pareça inalcançável por alguma razão que não depende de nós, mesmo que ela pareça fugir de nós, mesmo que ela pareça distraída de nós, mesmo que ela não nos queira. Insiste, insiste, insiste. Resulta muito bem, especialmente se nos estivermos a referir a assuntos do coração."

Foi qualquer coisa assim que me disseram ontem numa conversa. Para mim, directamente para mim. Aquele ser que é demasiado quebrável e flexível. Que tem medo de ser chato, de ser insistente, de se meter onde não é chamado. Que tem receio de se meter entre as pessoas e os seus milhentos problemas por achar que as suas necessidades são inferiores. Que se recolhe com demasiada facilidade à sua insignificância.

Foi dito, com muita razão, a uma criatura que se encolhe no seu canto quando as coisas não correm como esperado. A uma criatura que se fica pelo conforto dos cobertores quando pensa que o mundo vai desabar. A uma criatura que tremia dentro do guarda-roupa quando pensava que o quarto estava cheio de monstros invisíveis a todos os adultos, em tempos em que dores de coração eram arranhadelas nos joelhos; a uma criatura que agora encontra refúgios e subterfúgios noutros guarda-roupas metafóricos que apenas raramente servem os propósitos que só ela lhes atribui.

Foi atirado, como um dardo, a um ser que nem sempre vai atrás do que quer por ter medo do que quer ou por ter medo das consequências negativas que podem advir do prazer do objectivo atingido. A um ser que tem medo de ser metediço ou demasiado impulsivo ou demasiado focado apenas no que quer.

Foi lançado, como uma espécie de granada de aviso, a um ser que, demasiadas vezes, espera que o objecto do seu desejo lhe venha bater à porta do guarda-roupa, assim sem mais nem menos, como que por magia. A um ser que está habituado a ter o que quer sem grande esforço e que não está habituado a ter que lutar arduamente para ter o que quer.

Foi verbalizado debaixo de uma expressão de quase escárnio a uma criatura que, muitas vezes, prefere ficar especada em frente ao telefone, à espera de uma chamada ou de uma mensagem que a tirem do seu desmazelo, ao invés de ser ela a telefonar ou a mandar a mensagem. A uma criatura que tem coragem para loucuras levianas, mas que tem medo de coisas, às vezes, tão simples. [o excerto que se segue está, pois claro, pejado de metáforas lunáticas] A uma criatura que, demasiadas vezes, foi levada no colo em vez de ser ela a andar com as suas perninhas. A uma criatura que olha pela janela à espera da lua, em vez de atirar uma cana de pesca e puxá-la para mais perto, de onde a possa ver. A uma criatura que sai sem guarda-chuva em dias de temporal, com a esperança de que pare de chover. A uma criatura que esperam que a vá buscar, em vez de ir lá ter. A uma criatura que inventa soluções que não lembram ao arco da velha para problemas que, pensa ela, são intrincados.

Foi comunicado, sob a forma de aviso, a uma criatura que se fia no destino, em que, por coincidência ou não, não acredita, ou em coincidências que, por destino ou não, também não lhe caem no goto. A uma criatura que se acha complicada, mas que é previsível e elementar. A uma criatura que fica demasiado inebriada por sonhos demasiado pueris ou pouco materializáveis e que apenas desce à terra de vez em quando, para conferir que o mundo continua tal e qual como o deixou. A uma criatura que pensa demasiado em pormenores e que deixa as generalidades para seres racionais, ela que é demasiado filosófica e sentimental para se deixar contaminar por essa coisa horrível que são as estruturas rígidas do universo.

Foi assim transmitido, como um pergaminho imbuído de sabedoria, a um ser (que pensava) que tinha dificuldades em falar ou escrever sobre si próprio. Foi transmitido a uma criatura (auto-)denominada Luna. Espécie em vias de extinção (graças a deus, oiço um coro de vozes imaginárias à minha volta).

"Happiness is a sad song..."

2 comments:

Sandra said...

Foi então destinada a um ser magnífico, que como todos os outros encontra o seu refúgio em si mesmo, esperando sempre que sejam os outroa a dar o primeiro passo. "Sim, porque quem errou não fui eu" , né?
A um ser que faz de tudo pelos outros, mas que também devia de pensar mais em si. Tás a ver aquelas pessoas que tu achas tipo as melhores de sempre? Fica sabendo que és ainda melhor que elas e que brilhas ainda mais do que as estrelinhas no céu :) basta acreditares em ti, e naquilo que queres.

Um beijinho grande oh gémea genial :D ********

.diana.alves. said...

Que saudades que eu tinha de te ler:)
Beijinho*