Eu indecisa? Não tenho a certeza...

"Triste não é mudar de ideias. Triste é não ter ideias para mudar!" (Francis Bacon)

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Tuesday, November 24, 2009

hoje apetecia-me...

...que ninguém desse por mim, como se me tivesse tornado invisível. e que não me dirigissem sequer a palavra, como se eu não soubesse falar. que não me fizessem perguntas, como se eu não soubesse nada de nada. que decidissem todos viajar e me deixassem sozinha. em alternativa, gostava de entrar em casa sem que dessem por mim e de me esconder no meu quarto. e que não dessem pela minha presença a noite toda.

já é tarde para isso. de qualquer das formas, hoje apetecia-me o silêncio entrecortado pelo som das teclas do computador, ao ritmo das entrevistas que ainda estão apinhadamente encafuadas no gravador.

já que estamos numa de pedidos, seria possível acrescentarem umas quantas horas a estes dias? a começar hoje. e depois no fim-de-semana, as horas poderiam duplicar. eu não me queixava, juro. a quem é que eu peço isto? se calhar ainda é cedo para escrever ao Pai Natal. será que ele tem email? é que a neve atrasa os correios, segundo se sabe.

agora vou-me sentar no sofá e fingir que não existo. pode ser que resulte.

"happiness is a sad song..."

Saturday, November 21, 2009

crónicas soltas IV

 


a vida imita a arte, a arte imita a vida, disse ela naquele tom de voz sussurrante e eu fiquei a pensar se não seríamos todos, no fundo, imitadores de alguma coisa. claro que no fundo, a expressão "no fundo" não podia ser mais errada, porque está tudo à vista: imitamos descaradamente. não falo apenas dos artistas, que copiam correntes ou figuras de estilo, mas de toda a gente. ideias, expressões, roupa.

o que mete medo é nada ser original, no final de contas. não me queria perder neste raciocínio, pois de cada vez que penso nisso fico com o estômago às voltas. sempre que escrevo, perco a maior parte do tempo da revisão atenta a algum tipo de plágio involuntário. problemas de quem lê demais: já dei por mim a utilizar expressões de autores que já nem recordo ou mesmo neologismos. por vezes parto de ideias que li, como se elas tivessem partido de mim. é injusto, claro, mas refugio a culpa na premissa de que as ideias nunca são nossas, são de quem pegar nelas para as fazer chegar ao resto do mundo. de qualquer das formas, tento sempre corrigir essas formas de plágio ou faço apanágio a quem de direito.

tudo isto me faz pensar que nada é nosso, de facto. as ideias são do mundo, as expressões se calhar ouvimo-las em algum lado, os provérbios foram criados pelo povo, a roupa provém de algum conceito que, se calhar, foi original, as palavras que escrevemos são para os outros. nem a pele é nossa, é de quem a acaricia, é de quem a beija. o que quero dizer é que o mundo e a vida são feitos de partilha, quase literalmente. para que escreve um escritor? para ler lido. para que canta o cantor? para ser ouvido.e assim por diante. de nós e para nós.

se uma árvore cair num bosque onde não há vivalma será que existiu som? se ninguém estiver lá para o ouvir, para que serviu? se pegarmos na famosa Teoria do Caos, de Edward Lorenz, talvez tenha servido para alguma coisa e tenha gerado um tufão do outro lado do mundo - duvido que seja apenas o bater de asas de uma borboleta a causar o caos. se uma obra de arte não for apreciada por alguém que não o seu autor, será que é, de facto, uma obra de arte? e uma melodia? e um filme? [a propósito disto, lembro do Book of Illusions (Livro das Ilusões), de Paul Auster, em que uma das sub-estórias retrata a vida de um actor/realizador, mestre do slapstick mudo, que produziu algumas películas que tinham como objectivo permanecerem ocultas do mundo até ao dia da sua morte, em que seriam destruídas por completo. um artista que produziu apenas pelo prazer simples de produzir, privando o mundo das suas obras.] 

não sabemos, por isso, quantos artistas ficaram perdidos na obscuridade, quantas obras-primas nos escaparam. da mesma forma como não sabemos quanto de originalidade tem uma obra que está perante de nós. foi isto que eu pensei quando ela, aquela amiga estouvada que passava grande parte do tempo na faculdade de artes a desenhar a carvão traços de natureza morta. e quando ela me referiu que a vida imitava a arte e simultaneamente a arte imitava a vida eu perguntei-me qual das duas teria nascido primeiro: a vida, seja lá quando isso foi, seja lá com quem foi, seja lá por quem tenha sido ou a arte, sendo que a vida é, no fundo, a obra de arte suprema. portanto a resposta que me faz mais sentido é: as duas, exactamente ao mesmo tempo. Essa minha amiga concordou, mas fiquei com a impressão de que ela não tinha ouvido nada do que eu tinha dito, de tão entretida que estava a desenhar.

e agora penso: já alguém pensou nisto? quase de certeza, já que nada é original. peço desculpa, portanto, pelo plágio involuntário. já agora, o vídeo é só porque sim. a música, ou não fosse protagonizada pela Regina Spektor, é sublime... "good is better than perfect", sem dúvida.

"He used to go to his favourite bookstores
And rip out his favourite pages" >>>quantas vezes me apeteceu...



p.s.: voltei ao texto justificado, mas sem nenhuma justificação.


"happiness is a sad song..."

Thursday, November 19, 2009

pornografia dos sentimentos



às vezes tenho a impressão de que estou a transformar este jornal num tablóide com estas emoções condensadas em artigos. por outro lado, parece-me que já precisávamos de algum sentimento nas notícias. por outro lado ainda, devo sublinhar que o jornalista é, acima de tudo, um contador de estórias. desde quando são as estórias palavras frias que se limitam a narrar de forma demasiado estruturada e demasiado objectiva os acontecimentos que a compõem? com este último pensamento dou por mim a perguntar à minha consciência se não estarei a puxar a brasa à minha sardinha. para me abstrair das minhas próprias dúvidas vou enfiar o nariz nas páginas do Jornal de Letras com os seus textos tão jornalisticamente sentimentais. não me venham dizer que devia estar a trabalhar, que analisar o trabalho dos outros e reflectir sobre estas questões também faz parte das minhas tarefas...

...ou talvez me tenha aparecido, assim de repente, uma montanha de outras coisas jornalisticamente aborrecidas para fazer e tenha de relegar o resto para segundo plano... ou hobby, como lhe quiserem chamar.

"happiness is a sad song..."



quinta-feira

o dia a seguir ao fecho de edição do jornal é feito de preguiça. falta de vontade para arrumar as pilhas de papel, falta de vontade para ver os emails, falta de vontade para começar a trabalhar nos próximos artigos. acima de tudo, falta de vontade para vir trabalhar. ou melhor, deveria antes dizer falta de vontade para começar... como em tudo, o problema está em principiar qualquer coisa. a primeira palavra custa(-me) sempre a sair, o primeiro passo para fora da cama é sempre um conflito e assim por diante. pior do que isso, por vezes o problema está até na resolução. pensar em fazer algo para depois o fazer também custa. e aqui estou eu, a desfiar o meu novelo de queixas quando deveria estar a fazer alguma coisa de útil, nem que fosse limpar o pó.

mas não, hoje é o dia a seguir ao fecho da edição e é essa a desculpa. depois da tempestade, a bonança; depois da correria, o descanso. ou isto é a minha mente preguiçosa a inventar formas para desculpabilizar a vontade de inércia. seja como for, já tenho planos para esta semana e isso já não é muito mau. é que para além de minimalista – o supérfluo nunca deveria ser uma prioridade – parece-me que a mente pede organização. por isso, ando a experimentar diversas formas de ordenar o caos. primeiro listas infindáveis no fiel bloco de notas, depois separadores na pasta de arquivo, depois as pilhas de papel meticulosamente empilhadas, depois a secretária arrumada, depois mais qualquer coisa de que me hei-de lembrar, se chegar a esse ponto [duvido seriamente].

por agora, vou encher o papelão de comunicados de imprensa mal escritos.


"happiness is a sad song..."

não sei se já deu para reparar




mas ando numa fase minimalista.




"happiness is a sad song..."





Monday, November 16, 2009

crónicas soltas III


roubado do Postsecret

porque nem tudo o que parece é
porque tudo tem uma explicação lógica
porque tudo tem uma explicação lógica, mas não acessível a todos
porque isto me fez pensar que "there's more than meets the eye"
porque pensar é bom [de vez em quando]
porque hoje é segunda e isto fez-me sorrir

"happiness is a sad song..."

guia de sobrevivência I

como sobreviver à melancolia dos domingos preguiçosos? ir trabalhar depois do almoço, sem reparar que no dia seguinte é que começa a semana e depois do trabalho ir para um centro comercial em boa companhia, passar a tarde a ver roupa, ir ao cinema, jantar e voltar a ver roupa e depois ir ver livros e trazer um - não fosse eu uma "austeriana" convicta e lá veio mais um para a colecção, desta feita o Experiências com a Verdade, do genial Paul Auster.

e depois pensar que o mundo só poderia ser mais perfeito se as distâncias não existissem e se as obrigações não falassem mais alto e se o mais importante na vida fosse de facto a nossa felicidade.

bom começo de semana. a minha espera-se trabalhosa. e longa. humpf.

"happiness is a sad song..."

Friday, November 13, 2009

muito à frente

andamos todos com a carroça à frente dos bois, damos passos maiores do que a perna e desafiamos o tempo. é só a mim que me faz confusão ver decorações natalícias logo no início de Novembro? e pessoas já a pensar no que vão oferecer a este ou aquele? ou planos para a passagem de ano?

eu conheço bem a máxima do "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje", mas é só isso, o amanhã. não é "não deixes para daqui a um mês e tal aquilo que podes fazer hoje". já agora gostava de saber quem é que decide quando colocar as decorações.  há algum regulamento estipulado, algum manda-chuva desregulado que se guie por algum outro calendário que ande mais à frente no tempo ou algo assim do género que estipule quando devem ser colocadas as decorações de Natal?

isto sou eu que me ponho aqui a pensar em coisas que não lembram ao arco da velha quando decido beber chá de manhã. dá-me para isto, para pensar nos grandes problemas da humanidade. e este é para mim um grande problema: andarmos muito à frente. é uma coisa que me faz confusão por eu ser uma pessoa cautelosa, que gosta de saber com o que conta, que não gosta de tirar conclusões precipitadas e não gosta de ser precipitada em quase nada - apesar dos seus constantes rasgos de impulsividade, mas isso são outras estórias. então isto de ver luzinhas a piscar e pinheiros e cartazes de promoções para os bestsellers dos presentes - perfumes, livros, brinquedos - muito antes da data e sabendo de antemão que provavelmente cerca de 70% das pessoas vão andar às compras na própria véspera do dia de Natal é algo que me deixa consternada e ansiosa e stressada. que coisa estúpida, aqui a falar disto quando eu sou daquelas pessoas que sofre por antecipação.

isto foi só um desabafo matinal. feliz sexta-feira 13 aos meus queridos leitores. muitos gatos pretos, espelhos partidos, passeios por debaixo de escadas e saleiros derrubados em cima da mesa para todos.

"happiness is a sad song..."

para bom entendedor meias palavras bastam

passaram nove meses, mas o que nasceu, nasceu no início. e entretanto tem crescido e crescido e crescido. com certeza a partir de hoje crescerá ainda mais. e não há-de morrer.

"happiness is a sad song..."

Thursday, November 12, 2009

das pseudo-editoras

a propósito deste texto sobre pseudo-editoras que elogiam, ou melhor dão graxa, a quem tem blogues enaltecendo a sua escrita e propondo a publicação dos seus textos através de um modo funcionamento duvidoso em que pedem ao escritor uma comparticipação nos custos de produção, edição e/ou publicação

e a propósito deste outro texto que retrata também pseudo-editores que abafam debaixo de pilhas de livros mal editados – quer em termos de escrita, pela fraca qualidade da revisão, quer em termos de estética, pela qualidade das capas, páginas, etc. – os direitos dos autores, aproveitando-se das facilidades da impressão digital e da ingenuidade de quem anseia por ver uma obra sua publicada

apeteceu-me falar sobre duas propostas semelhantes que recebi, uma via email e outra via direct message no Twitter. não foram nada de especial, foram simples propostas do género "quer ver o seu texto/romance publicado?" a que eu respondi com um encolher de ombros que os autores das propostas não viram e um clicar no delete que esses mesmos autores não sentiram.

é que quem lê, de facto, este pasquim não chegaria ao ponto de elogiar o estilo de escrita ou os conteúdos, já que estes são de péssima qualidade, diga-se de passagem. por outro lado, quem lê este pasquim e presta a mínima atenção aos conteúdos deveria ter reparado que eu já me referi, mais do que duas ou três vezes, ao facto de não conseguir ou ter capacidade para escrever um romance a sério com cabeça, tronco e membros - ou melhor capa, páginas e lombada - nem ter paciência para e ser demasiado diletante para tal.

logo, se tivessem prestado atenção, não teriam sequer tido o trabalho de me propor alguma coisa relacionada com a publicação de textos ou romances. estas são as melhores provas do trabalho duvidoso a que estes nicks da internet – quem me diz a mim que são, de facto, editoras? – se dedicam sob a fachada de editoras.

isto faz-me perceber que o mínimo de ingenuidade no meio cibernético é demais e que também há bichos papões virtuais. apesar de considerar louvável a facilidade com que se conseguem fazer esse tipo de coisas como publicar livros, especialmente depois de ter falado com uma escritora que me contou, ontem, as suas peripécias ao longo de 30 anos para conseguir encontrar uma editora disposta a publicar aquele que era o seu sonho, penso que fazer as coisas pela via tradicional talvez seja o melhor, neste caso.

claro que não é fácil e é preciso bater a muitas portas que acabam por se fechar na nossa cara e que as cunhas passam-nos à frente dos olhos e não podemos fazer nada e que as críticas são sempre difíceis de aceitar quando falamos de sonhos pessoais ou esperanças acumuladas ao longo do período de escrita... mas deixar o desespero falar mais alto é como gritar as nossas fraquezas com um altifalante para os tais bichos papões. que não se fazem rogados.

adenda: mesmo a propósito, eis que recebo via Twitter mais uma proposta, desta vez em forma de reply. é preciso ter lata, não? ou estamos perante o caso de uma editora destas que é confiável?

"happiness is a sad song..."

Tuesday, November 10, 2009

picardias IV




isto explica muita coisa. acho que nem é preciso dizer mais nada.

"happiness is a sad song..."

estou em reunião

as reuniões fazem-me comichão. não daquela comichão que coçamos e passa, mas daquela que coçamos e vai aumentando, como se tivéssemos propriedades comichosas nas unhas. e então vamos coçando e coçando e coçando até ficar com a pele empolada e... é isso, as reuniões irritam-me. talvez até me façam mal à pele. ao ânimo fazem, de certeza.

penso que talvez os primórdios de toda esta irritação tenham começado aqui. eu conheço quem deteste reuniões desde sempre, vítimas do desmazelo de pais que passavam a vida nelas, como macacos que vão trocando de galho e que passam a vida toda assim: de reunião em reunião. se repararmos bem nisto, damo-nos conta de que por tudo e por nada reunimo-nos com semelhantes para discutir ideias. nem sempre isso são reuniões, penso eu. são isso, discussões de ideias. o que mais me desagrada e o que mais me chateava nos tempos do jpn era darem as reuniões como desculpa para não falarem connosco. nunca antes me tinha acontecido. "desculpe, mas fulano x está em reunião e não pode atender, quer deixar recado?", ao que eu não, não deixava recado e voltava a telefonar e o fulano continuava na mesma ou noutras reuniões.

parece que não fazemos mais nada na vida senão reunir. pergunta: "então o que fizeste hoje?"; resposta: "fui a duas reuniões de manhã, almocei e fui a mais três reuniões de tarde". no outro dia vi um filme no qual pai, mãe e filho tinham uma "reunião familiar", para resolverem problemas domésticos. ontem telefonei para uma mulher que ficou de me dar um parecer depois de uma reunião com o seu superior. e de manhã tive uma reunião com a minha superior e os meus colegas de trabalho.

o que mais me irritam são aquelas reuniões apenas com duas pessoas. já me aconteceu. e revelou-se estúpido, porque quando duas pessoas se encontram para uma reunião o mais certo é decidirem ir para um café e transformarem a reunião numa conversa amena sobre o trabalho que têm em mãos. foi o que aconteceu. e a pessoa recebeu um telefonema e disse para o seu interlucotor "não posso falar, estou em reunião". pois. há gente tão mentirosa.

quem diz reunião, diz plenários. também não gosto dessa coisa. mas já participei nalguns pelo menos desde os 13 anos. na altura dos grupos de jovens e num ou dois clubes em que participei fazíamos muitas actividades que requeriam reuniões e plenários: reuniamo-nos com as equipas de trabalho e depois partilhávamos ideias em plenário. confesso que foi tudo muito importante para a formação da minha personalidade. tanto que hoje em dia detesto fazer tanto uma coisa como a outra. consigo perceber a utilidade de ambas as coisas. mas não gosto. mesmo nada.

penso que passamos demasiado do nosso tempo em formalismos e a respeitar códigos de conduta ao desbarato. para depois analisarmos as coisas e concluirmos que isso não contribui em nada para aumentar a produtividade. mas contribui em muito para perdemos tempo de trabalho.

a única vantagem das reuniões é podermos usá-las como desculpa para não falar com aqueles chatos que nos telefonam de empresas chatas para nos fazer perguntas chatas. "oh agora não posso falar, estou prestes a ir para uma reunião...". eu sei, não faças aos outros o que não queres que te façam...


"happiness is a sad song..."

Monday, November 09, 2009

crónicas de uma engripada V

estar de volta ao trabalho sabe bem depois de uma semana em que os momentos mais excitantes do dia eram medir a temperatura. o ritmo do quotidiano vai entrando nos eixos e quase nem parece que não estive aqui. a diferença é que agora está mais frio e já reparo na corrente de ar, o dia amanhece cinzento e as pessoas parecem mais pesarosas, há por aí fumo de castanhas e parece que o tempo passa mais devagar.

entretanto volta-se à rotina de cafés matinais, piadas por entre o trabalho, pilhas de papel que se vão acumulando até à arrumação do final da semana, emails, telefonemas, pausas demasiado fugazes. é por causa de todas estas coisas que o tempo passa tão depressa.

este ano passou muito depressa e apercebi-me disso quando reparei que faz agora um ano desde que fui para Inglaterra. reparei também que, apesar de tudo, estou mais feliz agora do que estava nessa altura. e mais contentada com a vida. conheci mais pessoas e desviei-me um pouco dos objectivos que tinha traçado. e como sempre tudo o que parecia mal veio por bem.

para terminar ciclos, vou terminar estas crónicas de engripada. enquanto isso, mantenho a esperança de que esta tosse decida seguir o mesmo caminho que seguiu a gripe. até à próxima. seja ela A, B ou C.

"happiness is a sad song..."

Friday, November 06, 2009

crónicas de uma engripada IV

nada como um passeio e muitos miminhos para se acordar com outro espírito e a gripe ficar invejosa das atenções e querer ir-se embora. estes vírus são muito ciumentos e não gostam de ser relegados para segundo plano. portanto, foi tiro e queda.

e agora trabalho espera-me. mais uma vez relegada para segundo plano, a gripe já tem as malas à porta. e eu já estou pronta para voltar à minha vidinha.

"happiness is a sad song..."

Thursday, November 05, 2009

crónicas de uma engripada III

estou farta de estar em casa. estou farta de ter dores de cabeça. estou farta de ter tosse. estou farta de ter dores no corpo. estou farta de ter a garganta dolorida. estou farta de não conseguir comer normalmente. estou farta do sofrimento em formato mensal...ups, esta reclamação não era para aqui chamada.

a única coisa boa: poder trabalhar de pijaminha, na cama quentinha, a beber chá quentinho.

adenda: e o que diz o meu horóscopo hoje? >>> "No matter how much work you have piled up in front of you, a playful excursion with a friend today may be just what the doctor ordered."

"happiness is a sad song..."

crónicas de uma engripada II

estar doente assim é o cúmulo da solidão. prova disso é que vou ver televisão agora, coisa que não faço há talvez uma semana. isto faz-me parecer com os velhinhos reformados.

"happiness is a sad song..."

orgulhosamente

um dos textinhos deste blog foi gentilmente lido numa das emissões de rádio de um amigo, que faz parte desta banda, amigo esse a quem eu chamo de Benny. apesar de eu achar que há por aí textos bem melhores para se ler publicamente, aqui fica o meu agradecimento público.

a quem os links passaram ao lado, aqui fica o link do Rádio em Texto: aqui e o link do blog da banda luaCústica: aqui.

"happiness is a sad song..."

Wednesday, November 04, 2009

crónicas de uma engripada I

estar em casa e não poder fazer nada por falta de capacidades físicas e mentais tem muito que se lhe diga. é como ter um nogat na mão e não dentes para o mastigar. mas pior: é termos os dentes e não o podermos comer nem termos vontade. quem diz o nogat, diz docinhos, tartes de maçã, lasanhas e essas coisas todas.

não ter apetite é mau sinal, no meu caso. ou seja, a coisa cá dentro já não corria nada bem na sexta-feira, quando os primeiros sintomas deram sinais de vida e eu quase parecia uma morta. mas depois acalmaram e no sábado até se passou uma boa noite de halloween. e no domingo, claro, não me consegui levantar da cama e não era apenas cansaço, era algo mais que não conseguia definir por nem sequer conseguir pensar. meço a temperatura: uns belos 40º. passo o dia quase todo na cama, mas como sempre não levo nada a sério e penso que no dia seguinte já estará tudo bem.

pois que na segunda-feira não está tudo bem e uma vez mais a cama puxa-me para ela e não me deixa sair. e eu a pensar que ela estava farta de mim depois de um dia inteiro juntas. a temperatura lá desceu para os 39,5º e eu tomei um banho morno a atirar para o frio e ela chegou aos 38º para eu poder sair de casa e ir ao posto médico. mal eu acabei de revelar os meus sintomas à mulher da recepção já ela gritava "temos aqui uma suspeita de gripe A!" e já uma enfermeira me colocava uma máscara na cara e já outra me encaminhava para uma ala cheia de outros suspeitos do mesmo crime.

ora mesmo que eu tivesse apenas uns ténues indícios de gripe, como uma miúda que tinha apenas dores de cabeça e tonturas ou um rapaz que só tinha um pingo no nariz e alguma tosse, mas que estavam ali com pessoas que claramente tinham gripes fortes, ficava logo contaminada. para comprovar o "saudável" funcionamento do centro de saúde: fui atendida primeiro que duas crianças com menos de três anos, apesar da minha insistência em que elas fossem atendidas antes de mim. e ainda olharam para mim como se eu estivesse a pedir ostras e caviar.

o médico parecia mexicano e eu quase não percebi o que ele disse. quando ele me mostrou uma espátula depreendi que fosse para lhe mostrar a língua, quando ele sacou do estetoscópio depreendi que fosse para tirar o casaco. e lá percebi que tinha de ficar sete dias em casa e só se piorasse é que seria hospitalizada. como não faço parte dos grupos de risco, apenas me receitaram um composto de benuron com codeína e mandaram-me para casa com uma máscara na cara. como se já não me bastasse ter cara de monhé.

entretanto passei o resto do dia na cama e a noite a vomitar. e terça-feira foi cama o dia todo, mas consegui dormir umas horinhas de noite. e lá vou tentando trabalhar em casa, mas está difícil. ah, e a temperatura já está na casa dos 38º há algum tempo, por isso parece-me estável.

e eu cá tenho quase a certeza de que não é gripe A. sou muito optimista, eu sei.

p.s.: fosse eu pessimista e este post teria como título "crónicas de uma morte anunciada". Gabriel García Márquez está sempre na moda, é o que é. mas eu ando a ler António Lobo Antunes.

"happiness is a sad song..."

Thursday, October 29, 2009

de como as pessoas se apegam aos sítios

o comboio é aquele sítio de caras macambúzias de quando parece que o dia vai ser demasiado longo para tantas tarefas ou que a noite parece tão distante como a lua. há quem se dedique à leitura e dou por mim a ver de tudo: há quem leia publicações gratuitas - não me atrevo a apelidá-las de jornais -, há quem leia jornais diários de manchetes gritantes, há quem leia revistas de todo o género, inclusive das de culinária; há quem leia livros de consumo rápido e/ou bestsellers [isto foi uma crítica velada] ou históricos ou baseados em factos verídicos; e há os turistas que lêem afincadamente mapas da cidade.

de vez em quando encontro conhecidos. preferia ir sozinha, para não ter de fazer conversa de elevador, mas acabo por falar para não parecer carrancuda. há aquele que é filho da tia de uma amiga minha, que está três vezes maior do que na altura em que conheci essa amiga e o estranho é que agora falo mais com ele do que com ela, que teve um filho e casou e foi morar para outra cidade; há a amiga da minha mãe, que não é propriamente minha amiga e quase nem é conhecida, mas que faz questão de se sentar ao meu lado quando me vê e desfazer-se num rol de inquietações e lamentos despropositados – não sei como é possível uma pessoa ser tão pessimista de manhã; há o revisor que fica de pé junto à porta e não faz mais nada senão olhar e olhar e olhar e de vez em quando comenta o tempo ou a crise num tom resignado que me irrita e torna amarelo o meu sorriso, se é que chega a ser sorriso e não um simples esgar; há aqueles que só conheço de vista e que só me conhecem de vista, mas que de vez em quando, quando a solidão ou o tédio apertam resolvem encetar conversas com uma ou outra frase que possivelmente ouviram de outra pessoa ou leram em qualquer lado; também há aqueles que nunca vi, mas que conversam connosco como se fôssemos amigos de longa data ou como se quisessem que nós nos tornássemos íntimos.

no entanto, as melhores viagens são aquelas em que me sento junto a janelas que não estão sujas ou grafitadas e consigo ver o borrão de paisagem passar demasiado rápido para conseguir reparar em pormenores e não tenho de abrir a boca senão para bocejar e vou roendo uma maçã enquanto leio distraidamente frases de um ou outro livro – depois releio com atenção, mais tarde.

e entretanto o comboio chega e assim que as portas se abrem cheiro Sintra e respiro Sintra e sinto-me em casa, em Sintra. não é nada específico, não são as queijadas ou os travesseiros ou os pratos saloios ou a vegetação, é simplesmente Sintra. e há a brisa fria que sabe bem depois do calor abafado do comboio e o aroma das flores dos canteiros e o aroma daquelas árvores agarradas a paus pelo passeio fora e o odor do café pelas ruas fora, porque há cafés por todo o lado, e às vezes o cheiro do pão acabado de fazer e o fumo molhado dos cigarros daqueles que fumam mesmo à saída da estação e tudo isso misturado são manhãs acabadas de começar.

e passo junto ao quiosque para ver as manchetes principais e lá vejo o jornal com notícias minhas e a senhora que se atarefa a desempacotar palavras cruzadas e sopas de letras larga tudo para dissecar o que escrevi e dizer que não conhecia esta ou aquela palavra e dizer que fotos tão lindas, que fotos tão lindas, e dizer aos clientes que param para comprar o tabaco que lhes vai durar meio dia: que fotos tão lindas, que fotos tão lindas, parece que estive lá. E saio daquele círculo familiar, e sigo pela rua acima e o trânsito entope as estradas e a azáfama instala-se.

chego, paro para tomar café e já o dia começou e já os afazeres fervilham na mente e já a agitação começou e já são horas de escrever e de ver emails e de fazer telefonemas e de subir e descer as escadas e de sair e fotografar sítios e gravar vozes de pessoas ou apontá-las no caderno já calejado.

e agora que cheguei, parei e pensei, dei-me conta: já não conseguia passar sem este reboliço.

"happiness is a sad song..."

Thursday, October 22, 2009

picardias III

também eu vou falar sobre isto sem ter lido a obra.

que eu saiba estamos num país, num mundo, em que a liberdade de expressão é um direito. em que podemos ter as nossas opiniões, em que podemos discuti-las com quem tem opiniões contrárias, onde há debates e onde argumentar é quase uma máxima que rege o quotidiano. não estou aqui a defender alguém em específico, estou a defender uma ideia. a de que cada um tem direito a dizer o que bem quiser e apetecer desde que respeite os outros.

que eu saiba, a palavra crueldade não é um palavrão. que eu saiba já houve gente a dizer bem pior acerca do cristianismo e da igreja católica e da religião em geral. já ouvi chamarem a bíblia de obra de ficção. que eu saiba ele não é o único a tentar desmistificar a cegueira das civilizações contemporâneas em relação a factos bíblicos e os seus meneares de cabeça ocos de pensamento e os seus "oremos". disparate é toda esta convulsão de pareceres e críticas e manifestações de desagrado perante a opinião, e repito: opinião, de um homem.

o que faço eu que, ao que parece, sou do contra? aplaudo Saramago, pois claro.

convenhamos: o senhor Saramago é, sem dúvida [e na minha opinião, convém referir, para não ferir susceptibilidades] um homem de palavra(s). que sabe usar como ninguém a língua portuguesa ao ponto de, por vezes, a subverter [é preciso conhecer as regras para as contornar, disse uma vez, uma professora minha]. que tem uma imaginação prodigiosa. que sabe contar estórias e histórias como ninguém. por outro lado, já tem uma idade considerável e uma atitude de "eu-não-me-importo-com-o-que-pensam" que me faz admirá-lo ainda mais. não é que isso seja importante, mas contribui para explicar o meu ponto de vista:

toda a crítica negativa em relação ao livro está a funcionar lindamente como estratégia de marketing. eu aposto que o livro vai esgotar em menos de um sopro e que o novo livro do António Lobo Antunes vai permanecer na obscuridade por algum tempo. que venham mais escritores e livros assim que o mundo da literatura [portuguesa] estava parado há demasiado tempo e eu já bocejava de tédio. 

"happiness is a sad song..."

Wednesday, October 21, 2009

picardias II


foto: Gugu

[isto é uma generalização rasca]

em Portugal o inglês é quase a língua materna, tal é a forma como se funde com o português.

"happiness is a sad song..."

Monday, October 19, 2009

picardias I

o mau de se lerem bons livros é depois não se conseguir ler os maus.

[e eles ficam a entupir as estantes]

"happiness is a sad song..."

eu queria...

... enredar-me nos lençóis, deixar escoar o dia, ver a luz morrer aos poucos nas paredes do quarto, sonhar acordada e esquecer-me de respirar, passar as mãos pela almofada e perder-me em intenções, escutar o vento e talvez a chuva e os estores a bater, ignorar o mundo e deixar que ele me ignore, levantar-me a contra-gosto para fazer chá e bolinhos, não ouvir ninguém, absolutamente ninguém, sentir-me sozinha mesmo sem estar, pegar num livro ao acaso e perder-me nas palavras, parar para ouvir passos imaginários no corredor, imaginar espíritos mal-intencionados e sombras de árvores entrecortadas, acender a luz e algumas velas, paz de espírito e o barulho do silêncio, disfarçar a solidão com música, espreitar pela janela e sentir a brisa gelada de outono e fumo de castanhas na cara cheia de quentura caseira, pensar em ti de vez em quando enquanto fito o horizonte e lembrar-me de pensar em ti quando sinto a tua falta.

eu queria que fosse domingo outra vez e que consequentemente hoje não fosse segunda nem faltasse tanto tempo para o próximo domingo e queria não estar a escrever coisas chatas e não estar a corrigir textos sem nexo e não estar distraída com tudo o que não é trabalho, porque assim perco a concentração e as frases não capturam o sentido do que quero dizer, e queria acabar as poucas páginas do livro que ando a ler - em intermitências - para passar para outro livro, ou melhor, para ficar um ou dois dias a pensar no próximo livro que vou ler e só depois pegar nele e entretanto ficar a olhar para a estante pejada e para o quarto cada vez mais pequeno para tantos volumes e perguntar para mim própria onde vou eu arranjar espaço para mais livros.

e eu queria tantas mais coisas quantas as que pudesse querer. mas infelizmente querer não é poder.

"happiness is a sad song..." 

Thursday, October 15, 2009

literaturas

não sei se é impressão minha, mas acho que as pessoas andam a ler mais. no comboio, nas salas de espera, nas paragens dos autocarros. a ler livros.

claro, agora poderíamos partir para uma discussão interessantíssima sobre o conteúdo dos livros, que talvez deitasse por terra a boa-vontade de tentar aprender alguma coisa através de palavras de outrém, mas isso são contas de outro rosário - li esta expressão num livro pelo qual perpassei os olhos e ela ficou-me colada nos dedos.

gosto de ver pessoas a ler. cada uma delas tem uma forma diferente de pegar num livro. a que mais gosto é daquela maneira de colocar a mão direita sobre a parte mais baixa da lombada, em forma de apoio de púlpito, e a mão esquerda da mesma forma na parte de cima, mas com os dedos em forma de gancho, como um clip ou uma mola, a segurar as páginas para o vento não as levar. não gosto daquela maneira de ler em que se fazem beijar a capa e a contracapa, deixando na lombada várias marcas à medida que se avança no livro, especialmente se ele for em paperback - no entanto, por vezes, utilizo essa forma.

gosto de ver pessoas com livros grandes, especialmente se forem clássicos e/ou livros que já me passaram pelas mãos. não, aquele Twilight e outros que tais não contam - já li esses, claro está, que também eu adiro aos fenómenos massificados. acho que cada vez de lê mais livros maus e que continuar nesse rodopio de palavras gastas gasta também o cérebro e faz com que se leiam mais livros maus e tenho medo que o ciclo nunca acabe. sim, eu também já livros maus, mau conteúdo e mau estilo e erros ortográficos e falhas na concordância e outras garatujas literárias que me irritam mais do que eu gostaria. isso não implica que eu não leia livros bons, na maior parte das vezes em jeito de catarse. por coincidência, penso que já vou no terceiro livro bom de seguida e cheira-me que o quarto não vai quebrar a corrente.

adiante. acho que demasiada escolha literária também faz mal. pessoas indecisas como eu acabam por levar tudo o que lhes interessa, se as circunstâncias o permitirem; pessoas desleixadas não levam nenhum; pessoas influenciáveis levam o que toda a gente leva - e se a maioria lê literatura instantânea, também elas se tornam instantaneamente parte das massas.

tenho a certeza. há cada vez mais pessoas com livros na mão. isso não quer dizem que leiam, apenas quer dizer que andam por aí a gastar livros e, com sorte, a especializarem-se em palavras que sempre conheceram. não é mau. mas podia ser bem melhor.

"happiness is a sad song..."  

Monday, October 12, 2009

adoro a cor da capa



só decidi pôr aqui, porque sou fã do Stephen King e, vá, porque os Simpsons povoaram a minha pré-adolescência apesar de eu detestar amarelo desde que me lembro. e pronto, a senhora desenho animado até ficou bem sexy. nunca tinha reparado que ela tinha pés tão bem definidos e pernas tão torneadas.

"happiness is a sad song..."

Friday, October 09, 2009

nada de nada

em dias frios sabem melhor os ritmos quentes, sabem a abraço ou a mantas de flanela, o que nos dias quentes é despropositado, mas na verdade os ritmos dão bem com tudo se os soubermos adaptar ao tempo que vai mudando ao sabor de uma engrenagem invisível. quando tenho a minha pequena e branca grafonola digital quase no máximo, com o Surprise Hotel de Fool's Gold a atirar pancadinhas para os tímpanos, e o vento escorre pelos cabelos parece-me que estamos noutra estação qualquer. noutro tempo qualquer também. cá voltamos ao desbloqueador de escritas do costume, não?

pois que não, que hoje acordei especialmente inclinada para falar sobre nada em especial, o que não abrange os temas de circunstância, que usamos com desconhecidos que simpaticamente apelidamos de conhecidos ou vizinhos, tipo "parece que chegou o inverno e vem aí uma carga de chuva" ou "dizem que o x é que vai ganhar as autárquicas este ano, vamos lá a ver que promessas é que vão ser cumpridas". foi assim o dia todo, a vontade de nada, como se o meu pequeno mundo fosse demasiado, o que na verdade é verdade. não houve as costumeiras cotoveladas ou acenos de cumplicidade, os habituais versejos indisciplinados a mascarar verdades cruéis, as usuais trocas de comentários; só houve cafés, porque é preciso combustível para drenar as palavras do cérebro quando elas teimam em querer manter-se no conforto da massa cinzenta. não sei como é que agora estou a escrever, sem assunto ou sobre estas coisas corriqueiras.

mas não, hoje quero escrever sobre nada, que é exactamente aquilo que mais confusão me faz, porque sempre me assustaram vazios ou coisas ocas. e depois perguntam-me, mas quem é que te disse que o nada é vazio ou oco? e eu fico sem resposta. nada. vazio. oco.

hoje deram-me um caderno, com argolas e muitas folhas amarelecidas, de papel semi-reciclado, com a capa a gritar publicidade a uma empresa que me é desconhecida, e eu fitei os pontinhos que indiciavam um passado de cartões e relatórios e recibos, tudo aquilo numa única folha que já tinha sido muitas outras folhas, e fitei e fitei e fitei e pensei que o nada é uma coisa demasiado vaga. depois perguntaram-me, em que pensas? e eu respondi, penso na definição de nada; e depois perguntaram-me, e chegaste a alguma conclusão?; e eu respondi, acho que sim; e a outra pessoa arregalou os olhos e meneou a cabeça para baixo, como que dizendo para eu partilhar os meus pensamentos. e eu apontei para a folha do caderno novo, ou melhor, reciclado e disse, vês isto? isto é nada. e do outro lado perguntam-me, mas então o que é o nada?; e eu respondi, é exactamente isso, coisa nenhuma.

e ficámos por aqui, porque entretanto o tudo caiu-nos em cima.

"happiness is a sad song..."

Thursday, October 08, 2009

olhar nenhum

Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.

José Luís Peixoto, in Nenhum Olhar

às vezes calha haver um escritor que exprime o que sentimos melhor do que nós. aliás, é precisamente essa uma das razões que me incita a ler o máximo de livros que posso. de alguma forma, leio muito menos do que gostaria, mas mais do que devia. as viagens de comboio tornam-se curtas, os tempos livres escassos, o trabalho demasiado quando se quer ler mais e mais.

penso: talvez eu me refugie demasiado em certezas que não tenho para pensar que possuo alguma coisa de importante. penso: talvez as certezas não sejam assim tão importantes quando se sabe que não se têm certezas. porque essa é uma certeza. afinal tenho uma: penso.

"happiness is a sad song..."

Tuesday, October 06, 2009

gosto deste tempo

lembrei-me de que queria escrever aqui. depois lembrei-me que ando sem ideias, sem inspiração e sem vontade para as palavras - para as escrever, digo. e depois lembrei-me que tudo se exercita para incitar a vontade ou melhor, que tudo o que vale a pena se exercita para se incitar a vontade de as fazer mais vezes e melhor ou só melhor, dependendo das coisas. e depois lembrei-me que gosto deste tempo assim pardo, como dizem uns, cinzentão, como dizem outros, murcho, como diz a minha vizinha ou triste, como diz a minha mãe. e depois lembrei-me que gostar deste tempo é o pretexto perfeito para resolver a minha questão.

falar da chuva a bater nas janelas ou do ar frio que convida a ficar debaixo dos cobertores ou do som poético do chapinhar parece-me um lugar comum. prefiro falar do quanto gosto mesmo deste tempo que tanta gente parece detestar. certa vez alguém me disse que quem diz gostar do inverno não se apercebe de que não é do tempo chuvoso que gosta, mas da ideia reconfortante de todos aqueles subterfúgios que nos trazem o calor e o estado de espírito próprio das estações mais quentes.

não, não é isso. eu gosto mesmo do inverno. prefiro as estações intermédias, por exemplo, prefiro o outono. mas no outono não chove muito, por isso acho que gosto mais do inverno. e de apanhar chuva, como hoje, e de apanhar frio na pele e de abrir o guarda-chuva e ele não ser suficiente para não levar com gotas em roupa de lã. essas coisas.

pronto. é isto. já escrevi.

"happiness is a sad song..."

Thursday, October 01, 2009

apeteceu-me

confesso que tenho uma certa veia auto-destrutiva - o que nem sempre é mau.

se às vezes escrevemos para desabafar com alguma entidade desconhecidamente vaga a que chamamos de "diário" apenas para mascarar a sua inexistência, por vezes também sabe bem destruir o que escrevemos numa tentativa de apagar não só do papel, mas também da memória, episódios ou pensamentos ou quaisquer outras coisas. talvez esteja a generalizar demasiado, para variar. de qualquer forma, o efeito foi quase catártico. é um pouco como falar de dores para as amenizar. neste caso, não falar delas para não doer.





era o meu diário preferido, sim, mas todas aquelas palavras começavam a incomodar. da mesma forma que me começavam a incomodar as labels aqui do blog, que resolvi descartar - sempre foi um sacrifício catalogar os meus escritos, por serem tão diletantes, tal como eu. por isso, em ambos os casos, não quis sequer ouvir o bom-senso. às vezes sabe muito bem agir por impulso.



é mais ou menos isto que acontece sempre que me proponho escrever daquelas coisas a longo prazo. farto-me. recomeço. nem sempre por esta ordem.

nunca me tinha acontecido com um diário. ao contrário do que aconteceu com todos os outros escritos, até gostei disto. como se me tivesse transformado numa tábua rasa. mas com os mesmos pensamentos de sempre.

acho que estou a ficar demasiado minimalista.

"happiness is a sad song..." 
 

Wednesday, September 30, 2009

nota

eu adoro lojas de artigos em segunda mão. adoro até as roupas, que acabam por ser vintage, os livros, que se tornam incrivelmente baratos e todos aqueles objectos inúteis mas bonitos. só é pena esses sítios não venderem diários e blocos de notas.

"happiness is a sad song..."

Tuesday, September 29, 2009

para ti*

se durante quatro dias tivesse de me desabituar do teu toque, refugiar-me-ia nas tuas palavras, com vontade que elas me abraçassem da mesma forma que tu. se, por acaso, ficasse sem as tuas palavras, teria de me agarrar à tua memória e esperar que ela se agarrasse a mim com a mesma intensidade da falta que me fazes. se por infortúnio perdesse a memória, trazer-te-ia no tacto, porque a pele nunca se esqueceria de ti.

e eu que pensava que nunca seria emo.

*acho que não precisava de incluir o asterisco

"happiness is a sad song..."

Monday, September 21, 2009

das críticas

nunca gostei de pessoas que criticam muito. acho que me faz impressão quem critica sem sugerir. é que sempre me pareceu que uma crítica sem uma sugestão fosse mais ou menos como um aquário sem peixes: fica a intenção vazia. assim como as críticas: fica a intenção vazia de quem distribui gratuitamente indicadores espetados directamente aos erros, que por vezes só o são na óptica de quem os considera como tal.

adiante. também não gosto de críticas sem fundamento. eu prefiro que me critiquem com argumentos fortes. isso de não gostar porque se é de esquerda ou de não se gostar porque aquela não é a sua cor preferida nem me chega a fazer cócegas na alma. a reacção habitual é rebolar os olhos e seguir em frente. gosto de críticas com conteúdo, que estimulem a mudança [para melhor] e o pensamento. são essas as verdadeiras críticas, as que se basem em árvores de onde nasçam frutos.

já que estou numa de criticar os que criticam gratuitamente, também não gosto de pseudo-escritores. daqueles novos, que escrevem por escrever [descrever paisagens bucólicas, por exemplo] ou para apontar os males da sociedade. os seus apontamentos funcionam mais ou menos como as críticas sem uma sugestão ou um fundamento plausível a acompanhar. apontar males toda a gente faz. e escrever sobre eles também, mal ou bem. ainda ninguém disse a esses pseudo-escritores que a sua profissão é pensar, primeiro que tudo e que o resto [a escrita] vem por acréscimo. sempre pensei, cá para mim, que ser escritor era reflectir e não conseguir evitar escrever sobre essas reflexões. talvez não seja assim, talvez eu esteja errada. o que eu queria mesmo era dizer que de nada vale apontar simplesmente as maleitas, é preciso combatê-las e discuti-las com remédios fortes ou aguardente de cana [metaforicamente falando ou talvez não, depende das maleitas]. é isso, confluência de opiniões, críticas com fundamento e sugestão, debate de ideias.

às vezes parece-me que sou doutro mundo.

"happiness is a sad song..."

os sentimentos de injustiça tornam-nos mais unidos. aproveitamos as brechas para partilhar isto ou aquilo e para nos refugiarmos no café da frente, com chávenas a fumegar e as faces coradas de insatisfação. às vezes rimo-nos muito e chateamo-nos pouco - talvez essa seja a melhor forma de encarar as coisas.

há este senhor que entra por aqui a dentro e nos cumprimenta com um "bom dia, gente de paz" e outro que entra e não cumprimenta ninguém. há aquele que se senta automaticamente à minha frente, caneta em riste, para discutir opiniões e, por vezes, gastamos o tempo assim sem tirar grandes conclusões.

e agora há companheiros, quase amigos, por força das circunstâncias, com quem troco olhares cúmplices que não precisam de caixa de diálogo a acompanhar ou sequer legendas.

acho que me desleixei de escrever, as palavras soam-me todas mal.

vou continuar a escrever noutras paragens.

"happiness is a sad song..."

Monday, September 14, 2009

isto é poético



encontrado aqui.

"happiness is a sad song..."

eu bem que devia estar a trabalhar, a escrever os três artigos pendentes e os outros mais pequeninos, a serem encaixados ao sabor das urgências. ou devia estar a despachar emails ou a organizar papelada, ou devia até ir almoçar.

mas é que acabou de me aparecer uma barata de quase sete centímetros debaixo da secretária. para além de quase ter perdido a voz com o grito que dei, comecei logo a ficar com comichões e a ver bichinhos por tudo quanto é sítio. e o apetite foi-se [ainda bem, que ultimamente a minha vontade de comer é inversamente proporcional à minha vontade para trabalhar].

e aqui o ilustre jornalista, meu orientador de estágio, fez o favor de pôr a criatura daqui para fora não sem antes mandar a tirada "não se preocupe, se ela estava acompanhada, não tarda vai sentir umas comichões perna acima". pelo que decidi sentar-me de perninhas à chinês.

e agora: sem concentração, sem apetite, numa posição desconfortável e cheia de comichões.

adoro segundas-feiras.

"happiness is a sad song..."

Tuesday, September 08, 2009

medo

temos de começar a ter mais cuidado com o que escrevemos por essa internet fora quando o membro da equipa de uma candidata eleitoral, que decidiu vir visitar a redacção do jornal, olha para nós e do nada exclama "Luna Tic!" com ar espantado.

ao que parece lê o meu twitter. talvez leia também este pasquim. isto não é fama. também não é proveito. é simplesmente a minha fronha exposta onde não devia. ainda bem que não viu o meu hi5.

"hapinness is a sad song..."

Wednesday, August 26, 2009

Não sou convencida, apenas achei piada

«Escrever, ler ou adquirir um livro é sempre um acto de inteligência. Deve ser por isso que se vendem tão poucos livros.»

Livreiro anónimo à beira do suicídio

in Pó dos Livros

Tuesday, August 25, 2009

de volta

é raro conseguir levar coisas a que me comprometo até ao fim e isso, pelos vistos, inclui também aquilo a que me proponho não fazer. sou uma fraude. para além dessa importante descoberta, cheguei à conclusão - caso encerrado e arquivado pois não há mais sombra de dúvidas - de que sou do contra e isso está claramente comprovado ao dar-me conta de que aparentemente os dois hemisférios que compõem a minha massa cefálica estão em conflito permanente, quase como se um fosse Israel e o outro a Palestina. conclusão: comprometer-me a não escrever é o mesmo que atirar com o isco mais suculento à vontade de o fazer. esfregar-lhe na cara o papel e a caneta - ou, neste caso, o teclado - e zombar dela.

o que aconteceu em todo este tempo?
li mais? sim.
escrevi mais (offline)? sim.
passeei mais? sim.
conheci mais pessoas? double check.
estive com quem gosto adoro? com certeza.

pensei mais? não.

vivo neste universo alternativo em que não penso no que escrevo, mas escrevo naquilo que vou pensar. estes dias - vendo bem as coisas, muito pouco tempo passou desde que escrevi aqui, a sério, pela última vez - foram um suplício, de tal forma que senti na pele, ou penso que senti, aquilo que os viciados sentem quando são afastados do objecto do seu vício.

e entretanto, descobri uma passagem perfeita, num blog que entretanto encontrei a propósito da mentecapta ideia de se abolirem os pontos de exclamação (!!!). e aqui segue tal passagem que, diga-se, me fez cócegas na alma quando li.

"Os weblogs têm-me sido um escape, um pretexto para não pensar no que dói concentrando os dedos no que fere, uma forma de matar o tempo, uma manobra de diversão, uma fuga para a frente, têm sido um modo de suportar o mundo denunciando-o, testemunhando-o. Na realidade, preferia não sentir qualquer vontade de escrever sobre o que quer que seja. Preferia, sobretudo, não sentir qualquer vontade de partilhar com os outros o olhar ferido das musas, as vacas que se nos chegam em sonhos e abortam o descanso. Não é defeito, é feitio."

Henrique Fialho, in Antologia do Esquecimento

há dias em que me sentava em frente às teclas e sonhava que as tocava, compondo um texto - como estou a fazer agora e, note-se, estou em êxtase -, mas depois abanava tais pensamentos e dedicava-me a outras tarefas. passaram 11 dias desde a última vez que escrevi aqui, 22 desde que escrevi a sério. e nesses dias fui feliz: estive com pessoas que me fazem falta - conversei, ri e sorri, beijei, abracei - e prestei-lhes a devida atenção, que anteriormente concedia às palavras.

mas hoje, para além da falta que me fazia escrever aqui, ultrapasso desta forma um outro vício, que ficou indisponível por questões de distância.

lá têm vocês de aturar os meus devaneios outra vez.

"happiness is a sad song..."

Friday, August 14, 2009

paradoxo

hoje estive quase para voltar a escrever no blog. mas não escrevi.

"Happiness is a sad song..."

Monday, August 03, 2009

fechado para obras [ou demolição total, ainda vou decidir]

Eu e as minhas múltiplas personas - com quem discuti o assunto vezes e vezes sem conta - decidimos que está na altura de parar. Todas nós temos este medo incrível de não conseguir evitar escrever mais do que viver. Por isso mesmo, está na altura de recuperar o tempo perdido ou simplesmente arquivar esse tempo e criar um novo. Ainda estamos indecisas.

Estou farta de escrever mais do que falar, de desabafar mais em escritos do que com pessoas, de não conseguir ficar mais de um ou dois dias sem vir aqui [nem que seja para escrever coisas sem sentido], de saber que as pessoas que me são chegadas confiam neste pasquim para saberem coisas sobre mim.

Por isso mesmo, vou fazer da minha vida uma clínica de reabilitação até me ver livre desta espécie de vício. Até qualquer dia, fiéis leitores que têm aturado os meus devaneios.

"Happiness is a sad song..."

a divagar [se vai ao longe]

Apetecia-me que o fim-de-semana tivesse mais dias, que a noite tivesse mais horas e que as coisas boas não acabassem depressa. Tenho um amigo que me diz que há coisas que têm mesmo de ser - despedidas, afastamentos, rompimentos, sofrimentos -, porque, caso contrário, nunca nos daríamos conta do lado bom da vida. A tal questão dos pares: yin e yang, preto e branco, feminino e masculino, prazer e dor, vida e morte: sem um não existiria o outro. O que consideramos ser o paraíso está pejado de coisas singulares e, talvez por isso, desprovidas de sentido - e é por isso que eu penso que nesse sítio, se é que ele existe, somos seres sem consciência de dores físicas ou psicológicas e por isso mais inocentemente felizes. E é por isso que eu penso que devemos aproveitar a vida, pois a maior dádiva de todas - isto soa-me incrivelmente religioso - é a consciência das coisas.

Às vezes deixo-me flutuar nos momentos, aproveito-os bem e depois, sem me dar conta, torno-me introspectiva e ausente. São momentos e mementos que se esvaem em pensamentos sobre absurdos ou resoluções ou lembranças ou coisas sem sentido que passam a fazer todo o sentido. E eu sei que isto não faz sentido nenhum.

Tinha prometido a mim própria que, da próxima vez que viesse escrever neste pasquim não iria devanear. Já devia ter aprendido que é raro conseguir cumprir promessas assim, pouco exequíveis. Sou uma fraude, eu sei.

"Happiness is a sad song..."

Friday, July 31, 2009

long long time ago ou mais precisamente há dez anos

Parece que ontem alguém... como é que eu hei-de dizer... hum... acho que a palavra correcta é importante... fez anos. Ontem, no lugar do costume, juntou-se um vasto grupo de simpatizantes de tal criatura, para lhe prestar a (in)justa homenagem e, como é habitual nestes eventos, tentar compensar a falta de encontros e relatar os últimos acontecimentos de forma resumida [o resultado, normalmente, é uma sobrecarga apocalíptica de informação].

Não me vou perder, como habitualmente faço, em devaneios sem sentido. O mais importante aconteceu há dez anos atrás quando, por coincidência fui transferida para uma outra escola por questões de logística e essa criatura acabara de se mudar para a minha cidadezinha, para perto dessa escola que rebentava pelas costuras; portanto acabámos por ter de ir para uma outra, a uma estação de comboios de distância. A sorte dos deuses ou o destino ou seja lá o que lhe queiram chamar, fez com que ficássemos na mesma turma que, por sinal, era constituída maioritariamente por... como é que eu hei-de colocar isto... hum... gente maluca. Encaixámo-nos perfeitamente, claro está. Como é comum nesta coisa a que chamam de puberdade, juntámo-nos a um grupo [definição: conjunto de pessoas, neste caso, potenciais pessoas, que partilham de interesses semelhantes] constituído por meninos e meninas. Como é ainda mais comum nesta coisa a que chamam de puberdade, os meninos começavam a ver coisas que até aí lhes tinham passado ao lado e a considerar agradável a companhia das meninas; elas, por seu lado, começavam a descobrir os encantos desse género oposto. O resultado: os primeiros ou segundos ou talvez terceiros amores, desta vez consumados pelo início da maturidade. O resultado: a Luna, que até aí não ia com a cara dessa criatura, e a própria criatura ficaram a sobrar.

As primeiras conversas levaram-nos a descobrir uma personalidade semelhante, ou melhor, uma personalidade moldada da mesma forma, mas diferente, que se encaixava perfeitamente com a outra. Tornámo-nos, assim, quase inseparáveis [mesmo a muitos quilómetros de distância] e fomos crescendo ao sabor de confidencias e partilhas.

E agora... cá estamos. E cá estaremos por muito tempo. Eu e a minha alma gémea. Popito.




"Happiness is a sad song..."

Wednesday, July 29, 2009

resquícios de domingo



porque há domingos em que nos arrastam da cama para tostar de prazer a pele
e insistem que escolhamos o destino
e nos fazem esquecer os livros e os blocos de notas em casa
[ainda bem que há muitos guardanapos nos cafés e canetas de sobra na mala]
e se riem das minhas piadas como se eu fosse a melhor comediante do mundo
[terei descoberto uma das funcionalidades dessa coisa a que chamam
família?]
vale a pena recordar:


rochas e ondas que insistem em fazer cócegas nos pés, mesmo que tentemos fugir



rastos na areia, sombras entrecortadas e toalhas esquecidas no carro, um simples pretexto para sujar a roupa e fazer de nugget



roupa a secar ao sol, olhos fechados, o som da maresia por detrás de Debussy - subtil o suficiente para absorver os acordes e o mundo - e o mano a desconfigurar a máquina fotográfica enquanto nos apanha no momento introspectivo



"Happiness is a sad song..."

Monday, July 27, 2009

descobertas

Descobri que a minha vontade ou inspiração para escrever - nunca percebi a diferença entre as duas - é inversamente proporcional ao tempo que tenho. Sempre foi assim com tudo e mais alguma coisa e penso que deve ter qualquer coisa a ver com "o fruto proibido" ou é só mesmo estupidez crónica. Estou indecisa.

Descobri que as segundas-feiras passam mais depressa quando me proponho fazer alguma coisa de importante. Neste caso, cortar na cafeína - custa não a ter no sangue, mas faz custar menos o tempo a passar, porque parece que estou a fazer alguma coisa de importante o que, para dizer a verdade, é uma utopia, porque estou simplesmente a prevenir os constrangimentos de se abusar de substâncias ricas em cafeína. Talvez isso seja importante, porque me torna menos irritante e irritativa, mas também me torna [ainda mais] mais lenta. Estou indecisa.

Descobri que gosto mais de literatura clássica do que de contemporânea. Ou simplesmente tive azar nas escolhas que fiz e os autores recentes que li não seriam os melhores para representar a espécie - espécie de escritor actual que se serve das palavras para contar coisas um pouco banais ou já revisitadas vezes e vezes sem conta [passo a redundância]. Se calhar a culpa é minha. Nem sei.

Descobri que não existem coisas impossíveis, mas sim pouco prováveis. Isto pode parecer incrivelmente vago, mas prefiro não especificar.

Descobri que demorei cinco minutos a escrever isto e ainda me sobra algum tempo do coffee break - que agora já não uso para dar azo ao vício do café, por isso uso para outros vícios. Tipo este.

Escrever.


"Happiness is a sad song..."

Friday, July 24, 2009

insónias

Sem sono e sem vontade de dormir. Então o que se faz? aproveita-se para ir até à lua. É onde passo a maior parte do tempo, é certo, mas é também o meu destino predilecto para as divagações. Com os pés assentes no chão, mas com a cabeça na lua, contou um amigo meu a uma amiga que acabáramos de conhecer. Foi assim que comecei a ganhar fama de lunática.

Quando me esqueço do resto do mundo ou quando penso em ti, estou na lua. É o subterfúgio perfeito para os entardeceres ou para noites de insónia, porque assim sinto-me ocupada com coisas importantes: o mundo e tu. O mundo é essa coisa muito abstracta, com muita gente, sarapintada de verdes cada vez mais escassos, de azuis representativos da água cada vez mais escassa, rodeado por uma atmosfera cada vez mais escassa de pureza, demasiado grande para diminuimos saudades e conhecermos toda a gente e cada cantinho, mas demasiado pequeno para a nossa ambição - queremos sair daqui e chegar a outros planetas, como se este não nos chegasse. Tu és uma coisa muito pouco abstracta, que me aquece o espírito com as coisinhas que diz, que tem mais qualidades do que aquilo que pensa e que me faz sorrir todos os dias. No fundo, o meu mundo és tu. E a lua, essa, é nossa, de vez em quando, ou assim me parece, quando nada mais interessa, ou seja, sempre que estamos juntos.

Tenho quem me diga que eu exagero muito as coisas, que aumento os pontos dos ii, que se fosse pintora seria caricaturista, entre outras analogias simpáticas, mas eu penso que não é assim. Tenho a certeza de que, por mais indecisa e insegura que seja, e sei que sou porque a vida é feita de decisões e certezas urgentes, há coisas que ninguém me tira. A lua e a capacidade de sonhar com ela ou contigo. Tenho poucas certezas, está visto, mas as que tenho valem-me mais do que saber que existo - aliás, nunca tive provas de tal, porque isso do pensar [que me perdoe Descartes] é escasso por aqui.

"Happiness is a sad song..."

Thursday, July 23, 2009

publicamente

Descobri que é capaz de haver mais pessoas que conheço - also known as amigos, conhecidos ou familiares - a ver este meu pasquim do que pessoas que desconheço. É engraçado, porque eu escrevo aqui mais coisas do que aquelas que revelo quando estou com essas pessoas. E isto é um hábito meu, que tem a ver com isto que já aqui escrevi, e ainda com o facto de não gostar de declarações públicas, tenham elas a ver com aspectos positivos ou negativos acerca da minha vida [privada].

Descobri também que pessoas que conheço se servem deste pasquim como se ele fosse um manual de consulta sobre mim, o que me deixa a pensar que, por um lado, revelo mais coisas aqui, por escrito, do que quando estou com essas pessoas, o que talvez seja um mau hábito e, por outro lado, que talvez seja melhor assim, porque há coisas que não sei como dizer [pessoalmente].

Eu sei que tenho este hábito irritante de não falar sobre as coisas e que isto pode levar as pessoas a pensar que, por não falar sobre essas coisas, as quero esconder. Não é verdade. Não estou a falar de alguma coisa em especial, estou a falar sobre tudo. Eu sei que os amigos esperam que lhes contemos coisas importantes que se passam connosco, mas se o não fazemos não quer dizer que não confiemos neles ou que não os tenhamos em consideração, seja ela qual for e, neste caso, é muito alta, quer dizer que pode haver uma boa razão ou nenhuma razão por detrás de tudo; o que é certo é que se não nos sentimos confortáveis para contar, não devemos ser pressionados.

Eu penso que a) há coisas que não precisam de ser ditas a mais ninguém, senão àquelas a quem o assunto se refere; b) ao dizermos coisas ou fazermos declarações públicas, estamos a focar holofotes sobre essas coisas ou declarações, coisa que - e quem me conhece bem, sabe - eu detesto; c) ao declararmos alguma coisa sobre nós, como uma relação por exemplo, temos por consequência uma mudança de atitude para os intervenientes da relação, como se de repente, elas deixassem de ser indivíduos em separado, para serem um conjunto e perdessem a singularidade das suas personalidades; d) nem toda a gente lida com os [seus] assuntos da mesma forma e ninguém é obrigado a fazê-lo, portanto acho mal que se fique chateado ou magoado com essa diferença em lidar com as coisas; e) omitir coisas nem sempre é esconder, é simplesmente esperar que surjam as questões [directas e explícitas] para se pegar no assunto e abordá-lo livremente.

Não contar coisas a amigos não quer dizer que não confiemos neles, pode querer dizer que a) não confiamos em nós para as contar; b) não confiamos no assunto para o explicar; c) não sentimos necessidade em contar, porque é uma coisa "nossa", sobre nós, para nós ou não é a altura certa ou simplesmente não queremos constrangimentos de qualquer espécie.

Eu penso que os amigos, acima de tudo, devem tentar compreender as nossas razões antes de levarem a peito o facto de sermos diferentes e de, consequentemente, levarmos a vida de forma diferente.

"Happiness is a sad song..."

Tuesday, July 21, 2009

na lua

E foi aí que a imaginação me apanhou em cheio. Decidiu ela que a viagem à lua não havia sido um salto no espaço, mas um salto no tempo. Segundo ela, os astronautas, lançados no seu voo, haviam caminhado ao longo de uma linha temporal e pousado outra vez na terra, não esta que conhecemos, branca, verde, morena e azul, mas na terra futura, um terra que ocupará ainda a mesma órbita, circulando à volta de um sol apagado, morta ela também, deserta de homens, de aves, de flores, sem um riso, sem uma palavra de amor. Um planeta inútil, com uma história antiga e sem ninguém para a contar.

Saramago, no seu Caderno

Gosto de relatos apocalípticos. Gosto destas palavras escritas sem pudor. E se há algum tempo não me agradaram os seus livros, hoje sou leitora assídua de toda a obra, o que inclui um blog transformado em caderno ou um caderno transformado num blog.

Ontem foi dia de comemorar a lua. Quarenta anos dela, como se só há quarenta anos existisse ou melhor, como se o mais importante na sua existência tivesse sido o homem pousar lá os pés: um "grande passo para a Humanidade". Somos mesmo egocêntricos.

"Happiness is a sad song..."

Monday, July 20, 2009

do calor

Para ser sincera, eu nem devia estar aqui a escrever, mas não resisti ao chamamento das palavras. Hoje está sol e as pessoas que passam na rua parecem contentes, com um sorriso enigmático de quem conhece um segredo só seu. Há pernas, braços e ombros à mostra, cabelos condensados em tótós, óculos de sol gigantescos, gelados suculentos, fruta fresca, turistas de máquina fotográfica a tira-colo. Partilho de um café, antes de chegar ao trabalho, com uma turista japonesa que descobriu a maravilha que é a "bica", numa chávena escaldada, para onde vai despejando açúcar e bebendo, despejando e bebendo, como um ritual insólito e muito doce. Pergunta-me se gosto de aqui viver, num inglês macarrónico, e desfaz-se em cumprimentos quando eu a levo até à paragem do autocarro.

Gosto de passar perto das pastelarias, porque cheiram a pastéis acabados de fazer e porque é aí que se concentram as crianças, com as suas roupas em ponto pequeno e os seus sorrisos em ponto grande. Gosto de chegar à frutaria e rir-me enquanto o senhor do balcão tenta adivinhar que fruta vou levar desta vez - "Não me diga que são cerejas? Ah não, já as levou da última vez e sei que não se repete. Pêssegos? Olhe para estes madurinhos, até parecem mamilos de Vénus!" - ou de passar pelos bancos de jardim e ver pessoas a olhar, de forma fascinada, para a serra.

Hoje não posso deixar de me lembrar de ontem: o cheiro salgado da maresia e o sabor doce, o frio das ondas e o calor à minha volta, o coração a bater mais depressa e ter-te ao meu lado, mas sentir já as saudades de hoje. E podia continuar a escrever, se não me tivesse aparecido uma pequena pilha de papéis aqui na secretária.

"Happiness is a sad song..."

dos domingos III



Domingos assim são dias para se apanhar sol e comer gelados que teimam em deixar-se comer pelos cabelos - provavelmente é um bom hidratante, não? - são dias de esquecer desilusões e decidir ir à praia, mas parar por Sintra e perder-se por aquelas ruelas cheias de gentes de outras terras.



São dias para nos escondermos do mundo em lugares onde sirvam meias de leite e chás, onde haja janelas, adornadas com flores verdadeiras, abertas de par em par para a rua de onde nos chega uma voz quente e rouca de quem não se importa de cantar nuns degraus de pedra a troco de nada. São dias para se entupir o estômago de queijadas e travesseiros e sumos frescos e ir escapando ao sol ardente que deixa a pele em tons de caramelo ou chocolate.


Domingos assim são dias para se escrever ao sol quando as saudades das palavras apertam e as conversas nos inspiram para viagens mais longas. São dias para se fazer planos que sabemos que nunca se irão concretizar, são dias para deixar fluir utopias e esquecer a realidade, pelo menos até escurecer.



São dias para se encontrar caminhos perdidos mas caminhar sem rotas definidas, são dias para se esquecer dos livros em casa e inventarmos as nossas próprias estórias.



Domingos assim são dias de parar de metro em metro para sentar e sentir o calor e esconder a cara das fotos - sem grande sucesso - e perdemo-nos em conversas sem sentido.



São dias para se ficar para trás e fotografar tornozelos alheios enquanto se tem conversas de "gaja" com os próprios botões.



Domingos assim são dias para se perpetuar flores que apanham sol e zombam dos turistas, acenando ao sabor do vento, para cheirá-las e espirrar e rir às gargalhadas. Domingos assim são dias para se ficar sem bateria na máquina, mesmo quando se chega à praia pejada de gente semi-nua e suspirar de resignação.

"Happiness is a sad song..."

Saturday, July 18, 2009

Isto até podia ser um foodblog I


eu sou aquele tipo de pessoa que gosta de passar uma manhã na cozinha a reinventar as receitas que tenho no meu caderninho ou a usar a imaginação para fazer qualquer coisa nova. também sou aquele tipo de pessoa que não acredita nos produtos químicos e refeições prontas e prefere fazer tudo em casa. como é o caso desta pseudo-tarte (não sei que mais lhe hei-de chamar) que começou com farinha, água, gordura vegetal e gemas e, enquanto isso, foi sendo planeada como uma possível tarte de tudo-o-que-tenho-no-frigorífico-e-que-combina-com-massa-folhada, a começar com courgettes (abobrinha em português do Brasil e zucchinis em anglo-saxónico).


juntei-lhe um refogado de tomate, cebola e alho e pedacinhos de ervas aromáticas que combinam com atum e grãozinhos de pimenta preta, que espalharam um perfume
ajardinado por toda a casa.


acrescentei meia lata de milho a sobrar no frigorífico e uns quantos palitos de delícias do mar que restavam no congelador, enquanto pensava em como terminar em grande.

e aí lembrei-me de que gosto de ciclos, por isso, terminei como comecei: com courgettes. mas depois lembrei-me de uma bola de mozzarela de búfala escondida por entre os legumes da prateleira de baixo do frigorífico e pensei "por que não?". Para rematar, cobertura de ovo com um pingo de natas, um pouco mais de pimenta, orégãos e ervas provençais.


o resultado final foi uma travessa quase vazia entre cinco pessoas e muitas expressões de contentamento (ou talvez isso tivesse sido do vinho). já referi o quanto gosto de cozinhar? e de cozinhar para pessoas especiais?



para sobremesa, docinhos, que inventei num dia em que estava inspirada: cobertura de chocolate preto a esconder um núcleo de côco doce aromatizado com baunilha. perfeitos com café e dois dedos de conversa sobre livros que nos vieram à memória.

nota: por favor, não peçam receitas que eu faço tudo a olho, logo só posso receitar os ingredientes.


"Happiness is a sad song..."

A que está sempre na lua...

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