quando está frio as pessoas andam de forma diferente. mãos enterradas nos bolsos, passos agitados, orelhas cobertas, passos agitados, pescoços protegidos, mais passos agitados, o corpo envolto em camadas de tecido, mais passos agitados ainda, baforadas quentes no ar gelado, ainda mais passos agitados, o nariz vermelho. e os olhos diferentes. por vezes, ainda, expressões diferentes. é verdade, quando está frio as pessoas chegam a parecer pequenos palhaços tristes que caminham sofregamente, sempre com pressa de chegar a algum lado acolhedor e, claro, quente.
mas sim, num mundo feito de passos agitados, quando está frio a pressa é mais legítima: estar na rua é como atravessar um purgatório gélido e sabe tão melhor, em dias assim, estar do lado de dentro e olhar para fora por uma janela, que entretanto vai embaciando, enrolados em nós próprios e submersos no aconchego. ainda assim há no inverno beleza que, pela nossa constante pressa, mais acentuada nesta altura, se escapa. e as pessoas falam como se apenas as estações quentes fossem bonitas, como se o sol no inverno não valesse de muito e a chuva fosse inútil, e o frio então. mas não, não, há agora uma luz diferente, mais escura, mais enterrada, que faz com que a errática aparição do sol funcione como um pequeno milagre - hoje foi um dia milagroso - e faz com que a realidade e os objectos pareçam outra realidade e outros objectos, alterando sorrateiramente as sombras e os contornos, como se a luz funcionasse como um pincel numa tela húmida. e não é assim, desta forma, que vejo pintadas as conversas sobre esta época.
por mais que o calor seja um consolo é quando o corpo está arrefecido que apetece mais pensar e talvez seja esse o maior conforto do inverno, para além da vantagem de o clima (frio e chuvoso) ser um corrente e recorrente desbloqueador de conversa ou mote para longos diálogos - já testemunhei discursos sobre como "nem se pode andar na rua" durarem horas partirem para grandes amizades ou crescentes discussões ou frequentes analogias com almas enregeladas.
com o tempo quente os corpos adormecem de calor e os pensamentos tendem a estabilizar, por não terem outra opção senão esperar por momentos mais enérgicos, coisa que no verão, por exemplo, tão raramente acontece, ou pelo menos raramente vejo acontecer [a actividade vence o frio e a inactividade vence o calor, dizem certos textos taoístas]. talvez seja por isso que as pessoas no inverno andem sempre com tanta pressa, pressa de chegar ao estio, como se caminhar em passadas breves e corredias acelerasse o tempo (ainda mais).
nesta altura as ruas andam mais buliçosas, talvez seja das compras natalícias e toda essa correria, mas é também nesta altura que prefiro andar mais lentamente, passo a passo, e com isso, é como se o meu céu e o das outras pessoas não fosse o mesmo, e os meus passos funcionassem como um contratempo.
o que eu penso: se por um lado andamos mais depressa para chegar mais depressa às épocas mais propícias à inactividade, por outro o simples facto de andarmos sempre com pressa de alguma coisa faz com que nos esqueçamos (de pensar). no estado em que o mundo se encontra ou pela própria realidade em que nos encontramos agora que provavelmente tenderá a piorar no futuro, só pensando muito, muito, muito é que encontramos o lado positivo dos factos. logo à primeira vista, se tudo o que nos rodeia parece cinzento e não temos tempo, nas nossas constantes caminhadas, para pensar melhor nas coisas, é normal que tudo nos pareça, em conjunto, tão negro. e talvez seja essa a razão pela qual a depressão está tão em voga e as pessoas (me) pareçam pequenos palhaços tristes apressados.
"happiness is a sad song..."
mas sim, num mundo feito de passos agitados, quando está frio a pressa é mais legítima: estar na rua é como atravessar um purgatório gélido e sabe tão melhor, em dias assim, estar do lado de dentro e olhar para fora por uma janela, que entretanto vai embaciando, enrolados em nós próprios e submersos no aconchego. ainda assim há no inverno beleza que, pela nossa constante pressa, mais acentuada nesta altura, se escapa. e as pessoas falam como se apenas as estações quentes fossem bonitas, como se o sol no inverno não valesse de muito e a chuva fosse inútil, e o frio então. mas não, não, há agora uma luz diferente, mais escura, mais enterrada, que faz com que a errática aparição do sol funcione como um pequeno milagre - hoje foi um dia milagroso - e faz com que a realidade e os objectos pareçam outra realidade e outros objectos, alterando sorrateiramente as sombras e os contornos, como se a luz funcionasse como um pincel numa tela húmida. e não é assim, desta forma, que vejo pintadas as conversas sobre esta época.
por mais que o calor seja um consolo é quando o corpo está arrefecido que apetece mais pensar e talvez seja esse o maior conforto do inverno, para além da vantagem de o clima (frio e chuvoso) ser um corrente e recorrente desbloqueador de conversa ou mote para longos diálogos - já testemunhei discursos sobre como "nem se pode andar na rua" durarem horas partirem para grandes amizades ou crescentes discussões ou frequentes analogias com almas enregeladas.
com o tempo quente os corpos adormecem de calor e os pensamentos tendem a estabilizar, por não terem outra opção senão esperar por momentos mais enérgicos, coisa que no verão, por exemplo, tão raramente acontece, ou pelo menos raramente vejo acontecer [a actividade vence o frio e a inactividade vence o calor, dizem certos textos taoístas]. talvez seja por isso que as pessoas no inverno andem sempre com tanta pressa, pressa de chegar ao estio, como se caminhar em passadas breves e corredias acelerasse o tempo (ainda mais).
nesta altura as ruas andam mais buliçosas, talvez seja das compras natalícias e toda essa correria, mas é também nesta altura que prefiro andar mais lentamente, passo a passo, e com isso, é como se o meu céu e o das outras pessoas não fosse o mesmo, e os meus passos funcionassem como um contratempo.
o que eu penso: se por um lado andamos mais depressa para chegar mais depressa às épocas mais propícias à inactividade, por outro o simples facto de andarmos sempre com pressa de alguma coisa faz com que nos esqueçamos (de pensar). no estado em que o mundo se encontra ou pela própria realidade em que nos encontramos agora que provavelmente tenderá a piorar no futuro, só pensando muito, muito, muito é que encontramos o lado positivo dos factos. logo à primeira vista, se tudo o que nos rodeia parece cinzento e não temos tempo, nas nossas constantes caminhadas, para pensar melhor nas coisas, é normal que tudo nos pareça, em conjunto, tão negro. e talvez seja essa a razão pela qual a depressão está tão em voga e as pessoas (me) pareçam pequenos palhaços tristes apressados.
"happiness is a sad song..."
5 comments:
Apenas posso dizer que me fizeste pensar (damn you!). Confesso, sou um grande palhaço triste pouco apressado. Gosto de andar nas calmas, percebes?
Beijo meu*
alguém que me entende!!
texto maravilhoso, mesmo!
um beijinho (de palhaça, menos triste por ter vindo aqui)
Pronto, 10 dias passados e um tempo Primaveril em Dezembro. Está melhor assim?
Bah, nem vontade tenho de tirar o menino Jesus da caixa.
Humpf!
Tens toda a razão... Hoje em dia 'anda-se' sempre a 'correr', deixando-se de aproveitar a beleza das coisas simples do dia-a-dia.
Chega-se ao cúmulo de marcar férias totalmente calendarizadas / agendadas para que se ande a correr de um lado para o outro para cumprir com a agenda :)
No entanto à que admitir que também não se pode ser sempre tantrico, umas rapidinhas de vez em quando também sabem bem :P
Tens toda a razão... Hoje em dia 'anda-se' sempre a 'correr', deixando-se de aproveitar a beleza das coisas simples do dia-a-dia.
Chega-se ao cúmulo de marcar férias totalmente calendarizadas / agendadas para que se ande a correr de um lado para o outro para cumprir com a agenda :)
No entanto à que admitir que também não se pode ser sempre tantrico, umas rapidinhas de vez em quando também sabem bem :P
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